sábado, 12 de dezembro de 2009

Canto de amor


Do que adianta passarinho com asas sem poder voar? Estava cercada por grades, mal a luz entrava. Seu canto era de lamento. Não queria estar ali, assim desse jeito. Ele não ouvia seu apelo. E não via suas penas, que outrora brilharam a luz do sol, da lua e das estrelas. Se não notava que ela chamava seu nome num triste canto, jamais se lembraria que ela estava pedindo pra ser libertada. E continuaria pra sempre sem poder voar a outros lugares, nem ter suas cores admiradas por outros melhores que ele e sem ter alguém pra lhe oferecer o que tanto precisava em sua breve vidinha.
Será que ele não lembrava que ali batia um coraçãozinho de passarinho? Estava viva ainda, e esperava. Não com a alegria de antes. Mas com a resignação de quem vive numa prisão perpétua esperando o fim. Sabia que ele não era o único a fazer isso, e também sabia dos riscos que correria se fosse embora dali. Um risco que valia correr, desde que pudesse voar e cantar feliz novamente, como quando o conheceu. Mas ele a aprisionou. E com o tempo foi se tornando ausente, até a deixar, abandonada. Não lhe cortou as asas. Ficara livre pra voar. Mas como dentro daquela gaiola?
Dia após dia cores iam desaparecendo. Ele não vinha pra libertá-la. Por onde andaria? Talvez buscando outra pra aprisionar. Como pudera deixar ser capturada por ele, que era tão mal daquela forma! Mas não sabia disso. A dor de agora não valia a recompensa de antes. Porque já lhe começava a faltar o ar. E não havia mais fôlego pra cantar. Nem sono pra dormir e então, quem sabe, sonhar com velhos ou novos tempos, que nunca viriam enquanto estivesse só, entre grades, ignorada por ele. Estava cansada e parece que uma gotinha escorria daquele olhinho tão pequeno da criaturinha, tão bela e doce, mas tão triste e acabada.
Algum barulho ao longe foi se aproximando, e chegando cada vez mais perto. Será que ele veio me tirar daqui?
Fez-se luz na escuridão. De repente estava em outro lugar. As cores e o canto suave novamente. E voava, liberta. Quem a levou àquele lugar lindo, onde jamais se sentira tão bem? Um enigma que permaneceu, sem a atormentar. Sabia que ele não estava ali. Talvez tenha lhe soltado, ou outro que, passando por ali, viu um passarinho chorando e quis ajudar. Não se sentia sozinha, nem estava, mesmo sem ele. Não precisava de gaiolas, estava bem assim.
Ao longe, ele a via subir às nuvens, descer à água e ouvia seu canto, sem culpa, desejo, lágrimas ou arrependimento. Apenas admirava a beleza do que um dia foi seu, mas não soube cuidar e viu-se obrigado a libertar.

3 comentários:

  1. Nossa, Aylla! Mto lindo! adorei! =)
    vc escreve mto bem.
    Parabéns!

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  2. Mas ele a aprisionou. E com o tempo foi se tornando ausente, até a deixar, abandonada.

    Por um instante achei que essa frase tinha haver comigo nada né...

    beijos

    Parabéns..

    Paulo Gustavo

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