terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Jogando Olhares


Não havia azul mais azul do que aquele! Hahaha não mesmo! Ela sabia que não havia porque conhecia cor azul e os vários tons de azul. Como aqueles olhos jamais! Eram azuis sim, os mais belos, cheios de mistério. Porque quando os seus, que não eram azuis, encontravam aqueles... Ah... não tinha palavras... eram breves instantes em que os olhares falavam por si sós. E depois ficava pensando no que havia por detrás daqueles olhares. Quais segredos eles escondiam dela? Sabia que não os conheceria em tão rápidos momentos. Queria poder olhar mais e ter, não uma, mas várias conversas, se perdendo no mar azul, mergulhando nas profundezas, buscando os tesouros, porque, sabia, por ali haveria muita riqueza. Não é qualquer um que nasce com esse dom tão... azul? Era muito mais que isso. O que era mesmo? Estava perdida agora, pois, de repente, eles vieram de encontro aos seus.
Onde estava mesmo? Não importa, o que realmente importava é que eles estavam ali, por perto. E ela esperava, como uma criança que espera receber um chocolate, pela hora em que eles se voltariam a ela. Será que os seus teriam algo que lhes interessasse?Afinal de contas, às vezes eles vinham em sua direção, porém se mantinham distantes novamente. A cada olhar seu desejo aumentava. Queria mais do brilho, da vida daqueles olhares. Precisava destrinchá-los e conhecê-los. Já os amava. Porque não poderiam ser seus? Claro que não era inveja! Não queria os olhos, mas os olhares voluptuosos pra ela. O que faria? Ficar só olhando não dá! Mas ia falar o quê? Perguntar de quem ele herdou os olhos azuis? Não podia abordar alguém perguntando sobre a cor dos olhos dele. Aliás, não tinha idéia de como iria dirigir-lhe qualquer palavra. Olhares dizem muita coisa, sim, mas nem tudo. E, muitas vezes, dizem algo que já foi dito por palavras, então precisava falar, mas o quê?
Confiava em si mesma, sabia que era bonita e que os olhares a desejavam. Então esperaria por eles? Mas e se não voltassem? Não gostava de pensar nessa possibilidade. Seria tão triste! Já estava muito envolvida naquela relação, pra ser deixada assim, sem nenhuma palavra. Iria atrás? Teria que fazê-lo, mesmo sem cara e coragem. Ah...não me olhem assim... pensava. Só aumentava seu desespero. Achava melhor controlar-se e brincar também. Eles estariam ali amanhã, provavelmente no mesmo horário, e depois... também sabia onde poderia encontrá-los fora dali. Não era a primeira, nem seria a última vez que os veria. Cada encontro de olhares, nos locais menos prováveis, pra ela significava que não era tão improvável assim ter mais daqueles olhares e por mais tempo.
Decidiu que o jogo estava começando. Dois jogadores, quatro peças. As regras eram incertas, mas alguém iria ganhar, logo nenhum iria perder. Pra ela fazia muito sentido, considerando-os perturbados pelo azul que mais uma vez inundava sua consciência. Achou melhor ir embora e deixá-los lá. Quis dizer até amanhã, mas não achou adequado. Iria pensar nas melhores táticas. Eles seriam seus, e não pensaria em outra coisa até conseguir o que queria.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Além da vida

Aos cacos... O carro, o despertador, o telefone e ele próprio. Sabia que já era tarde demais para chegar atrasado ao trabalho. Pouco lhe importava. Aliás, nada importava naquele momento, apesar de saber que as roupas estavam espalhadas pelo quarto, havia poeira sobre os móveis, o último pedaço de pizza devia estar sendo bem servido por baratas, algum amigo talvez ligasse, seu chefe poderia o demitir, aquela febre não iria passar, não queria saber de remédio, nem absolutamente nada e não iria se levantar da cama, mas ficaria ali imóvel. O cheiro dela ainda estava naqueles lençóis. Poderia ficar lá, sentindo-o apenas, tentando aproveitar o que restou, desde sua partida.
Brigou, xingou, foi embora, e sabia, desta vez não iria voltar. E era culpa sua, que a deixou sair daquele jeito, nervosa, histérica. Ele a entregou as chaves do carro, disse para ir. Ela foi. Tentava não imaginar o susto, a dor sentida por ela no acidente, seu sangue molhando o asfalto, seu coração que não batia mais. E foi-se assim, sem perdoá-lo, com lágrimas ao rosto. Ele era um maldito filho da puta que não merecia estar vivo, ao contrário dela, tão linda, inteligente e jovem. Mas destruira a vida dela, logo não merecia viver.
Não suportaria viver só, sem ela. E porque disse todas aquelas coisas, se era o amor que o mantinha de pé, se era ela seu anjo que lhe trouxe paz, risos e felicidade? Como levantaria sem escurtar-lhe a voz dizendo bom dia, com a casa sem o cheiro do café que ela fazia, e depois sair sem o beijo de hortelã daqueles lábios macios, e sem ver a ternura em sua face dizendo até mais tarde? Como depois dirigir-se a uma casa vazia, sem ninguém a o esperar, para poder conversar, e não a teria para jogá-la na cama, nem dormir ao seu lado. Nada mais fazia sentido. Aquilo deveria ser um pesadelo, precisava acordar. Mas era tão real, sabia que era.
Fechou os olhos. Viu-se fora do quarto, não sabia onde. E então escutou que chamavam seu nome. Era ela. Envolta por luz que lhe ofuscava a visão. Atirou-se lhe aos pés e chorou e pediu perdão e jurou que a amava mais que tudo e que não queria viver à sua ausência. Radiante, seu anjo sorriu, como se o perdoasse, estendeu-lhe a mão, pedindo que se levantasse. Ela estava tão perto, mas tão longe, que não poderia trazê-la de volta. Tinha que levantar, mas faltava-lhe forças. Ela o ajudou, dizendo que o amava, pedindo para não esquecê-la. E mais uma vez, foi-se.
Abriu os olhos. Estava tudo da mesma forma, nada havia mudado. Saiu da cama. Porém, não foi trabalhar.
Foi buscá-la em algum lugar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Caça


Sentada na praça de alimentação do shopping, com fome, escolhia minuciosamente do que iria se servir. Olha todas aquelas pessoas, com suas sacolas e seus risos. Sente o calor que emana daquele tumulto de gente, que vai e vem, e come e bebe. E até poder-se-ia notar um riso sarcástico em sua face pálida, contemplando a rotineira cena. Com seus olhos de águia, fuzilantes e profundos espreita a tudo e a todos, na busca do que melhor lhe servirá.
Eis que alguém desperta-lhe o interesse, menos por sua beleza do que pela atenção direcionada a ela. E seu maior erro é encará-la, como assim o fazia. Em sua mente a voz dela o chama e já o leva em direção à mesa na qual está sentada. Sem palavras. Apenas toma-o pelo pulso e o conduz às escadas rolantes. Saem do ambiente hostil do shopping e vão ao parque logo ali em frente, onde ela decide levá-lo a uma pequena matinha fechada. Apesar de não ser tarde, a noite fazia-se escura ali, exceto pelo brilho da lua cheia.
O encanto despertado por ela o faz imóvel agora. Roça sua face na dele e sopra-lhe algo ao ouvido. Ele fecha os olhos. Então ela busca ao redor um objeto, encontrando uma pedra. Com dois golpes o faz cair, inconsciente, ao chão. Começaria então seu deleite... Tira do corpo dele o sobretudo preto, seguidamente a camiseta. Senta-se sobre suas pernas, finca-lhe as unhas nos peitos nus, e desce, vagarosamente, deixando linhas de sangue até o nível do umbigo. Debruça-se e passa a língua nas marcas, saboreando o doce sangue da presa. Sobe à sua orelha para morde-lhe, conseguindo assim mais algumas gotas de sangue. Seus dedos deslizam entre seus fios de cabelos negros e descem-lhe aos braços, deixando mais linhas vermelhas... Agora morde-lhe a bochecha, e depois o lábio, beija-o e mastiga-o. Desce ao pescoço, sentindo carótida pulsar. Finca os caninos afiados, fazendo com que seus sangue esguinchasse, e repete seguidas vezes. Suga tudo, para que nada seja desperdiçado. Sentindo tanto prazer devora o que pode, até notar que a carne dele já se iguala à sua, fria. E o pulso some...
Levanta-se satisfeita. Veste o sobretudo. Olha o corpo no chão e ri, com desprezo. Sai dali.

A noite só está começando...

sábado, 12 de dezembro de 2009

Canto de amor


Do que adianta passarinho com asas sem poder voar? Estava cercada por grades, mal a luz entrava. Seu canto era de lamento. Não queria estar ali, assim desse jeito. Ele não ouvia seu apelo. E não via suas penas, que outrora brilharam a luz do sol, da lua e das estrelas. Se não notava que ela chamava seu nome num triste canto, jamais se lembraria que ela estava pedindo pra ser libertada. E continuaria pra sempre sem poder voar a outros lugares, nem ter suas cores admiradas por outros melhores que ele e sem ter alguém pra lhe oferecer o que tanto precisava em sua breve vidinha.
Será que ele não lembrava que ali batia um coraçãozinho de passarinho? Estava viva ainda, e esperava. Não com a alegria de antes. Mas com a resignação de quem vive numa prisão perpétua esperando o fim. Sabia que ele não era o único a fazer isso, e também sabia dos riscos que correria se fosse embora dali. Um risco que valia correr, desde que pudesse voar e cantar feliz novamente, como quando o conheceu. Mas ele a aprisionou. E com o tempo foi se tornando ausente, até a deixar, abandonada. Não lhe cortou as asas. Ficara livre pra voar. Mas como dentro daquela gaiola?
Dia após dia cores iam desaparecendo. Ele não vinha pra libertá-la. Por onde andaria? Talvez buscando outra pra aprisionar. Como pudera deixar ser capturada por ele, que era tão mal daquela forma! Mas não sabia disso. A dor de agora não valia a recompensa de antes. Porque já lhe começava a faltar o ar. E não havia mais fôlego pra cantar. Nem sono pra dormir e então, quem sabe, sonhar com velhos ou novos tempos, que nunca viriam enquanto estivesse só, entre grades, ignorada por ele. Estava cansada e parece que uma gotinha escorria daquele olhinho tão pequeno da criaturinha, tão bela e doce, mas tão triste e acabada.
Algum barulho ao longe foi se aproximando, e chegando cada vez mais perto. Será que ele veio me tirar daqui?
Fez-se luz na escuridão. De repente estava em outro lugar. As cores e o canto suave novamente. E voava, liberta. Quem a levou àquele lugar lindo, onde jamais se sentira tão bem? Um enigma que permaneceu, sem a atormentar. Sabia que ele não estava ali. Talvez tenha lhe soltado, ou outro que, passando por ali, viu um passarinho chorando e quis ajudar. Não se sentia sozinha, nem estava, mesmo sem ele. Não precisava de gaiolas, estava bem assim.
Ao longe, ele a via subir às nuvens, descer à água e ouvia seu canto, sem culpa, desejo, lágrimas ou arrependimento. Apenas admirava a beleza do que um dia foi seu, mas não soube cuidar e viu-se obrigado a libertar.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Indigente

Deitado ali. Jogado daquele jeito. Num turbilhão monstruoso de businas e motores. O sol é forte, não tanto quanto a dor. Começava em alguma parte do seu corpo, que já não sabia qual. E ia se espalhando, chegava a algum lugar da sua barriga, da sua cabeça, que girava e de voltas em voltas ainda estava lá. Deitado, imóvel, quase morto. Eu quero morrer, mas nem isso posso. Eu, inutilmente um ser asqueroso com dor. Sujo e fedido. E todos passam e olham, apenas. Há quem se comova, ignore, sinta raiva, mas ninguém ajuda. Nem ajuda quero. Seu desejo - e um ser assim pode desejar alguma coisa?- era só dormir eternamente - mas que barulho insuportável! Meus pés grudaram e minhas mãos, cadê as minhas mãos? Um ser que não tem mãos e tem os pés grudados e a barriga pregada no banco quente e a carne derretendo já é quase um não ser.
Nada a fazer. Lembrar da família que não tem, ou daquela que nunca teve. Quem se importa? Mal cuido de mim, quanto mais de outras criaturas... Aquelas pessoas que passavam tinham suas casas e suas famílias e sua dignidade. Eu sou um nada. A vida toda – que vida?- nunca fui. Em sua resignação jamais será. A carne está mole, não tem força pra lutar, quem dirá sair dali. E quem chega pra tomar o ônibus se assusta. Quem está dentro do ônibus, não. Afinal de contas ele só podia roubar quem estivesse ali parado, esperando aquela caixa de rodas. Tem gente que reclama de pegar ônibus. Mas quem anda de ônibus é porque vai pra algum lugar, tem alguma casa e tem algum dinheiro, senão estaria ali como ele, deitado no banco do ponto de ônibus e não esperando o maldito ônibus, que faz tanto barulho, ah minha cabeça dói!
Não vou me levantar. Porque não tinha pra onde ir. A não ser que quisesse outro ponto. E ser visto por outras pessoas, que no fim das contas são sempre as mesmas. Eu aqui não sou o mesmo dos que estão ali e nunca vou ser enquanto minha carne arder e minha cabeça rodar e a dor me consumir. Talvez ela me mate. Seria bom. E queria desistir assim, entregar desse jeito – nem mãos tenho pra entregar nada.
Um trovão. E o tempo está se fechando. Podia cair um raio, aqui mesmo, onde estou. E então tudo fritava de vez e virava pó. Pó é alguma coisa. Eu sou um nada. E os primeiros pingos caiam sobre sua cara. E cada um é como um tapa. Por estar ali, merece isso. Não adianta buscar culpados por estar lá. Passou a vida procurando-os e ia encontrá-los um a um, olhando dentro de si. Porque o coração ainda bate. O cérebro pensa. As mãos estão aí sim. Mas do que adianta isso, se eu não tenho nada? Mas tem sim, o amor tem suas raízes. Onde não há mal, o bem ocupa espaço.
A chuva lavava a rua. E sua roupa suja. A enxurrada molhava os pés das pessoas que desciam do ônibus, raivosas por estarem naquele ônibus cheio de gente, com os vidros fechados. E limpava sua cara amassada. Estou sentindo minhas mãos, e meus pés desgrudando. Ainda dói. Melhor sair daqui e ir pra lugar nenhum.
Um clarão iluminou o céu.