sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O início

Tudo podia ser um eterno início. Sim, cada dia é um novo dia. Mas coisas repetidas a cada dia cansam, e os dias se tornam enfadonhos. E ter um motivo pra sorrir é muito bom, porque esses dias podem se tornar novos. (Viu, como dias, dias e dias, são chatos?). Sempre teria algum motivo pra sorrir, mas um era especial. E as palavras que ele lhe dizia, seus gestos e seus olhares já eram suficientes pra deixá-la confortavelmente anestesiada, mergulhada no seu humor próprio.
E nos momentos em que se deixava adentrar nas profundezas dos seus olhos, às vezes sentia que estava tão longe quanto não poderia mais voltar. Achava que seria realmente árduo o caminho de volta, e esperava não ter que fazê-lo tão cedo, pois preferiria continuar se perdendo, indo mais fundo o quanto pudesse, mas não queria se afogar ou cair de modo que não pudesse levantar. E assim, com medo, prazer e curiosidade, simplesmente deixava-se ir, guiada pelo que de bom sentia naquele momento. Seja lá que palavra usasse pra descrever o que sentia, era algo muito delicioso de se sentir. Podia ser mais um dos seus vícios, com todos os riscos que isso pode representar, e olha que já tinha tantos outros. Sim, seus beijos se tornariam mais um. Pelo menos no início, assim lhe parecia.
Tivera outros inícios, bons, momentos de êxtase, mas nenhum caminho a fez se perder de modo intenso o suficiente que fosse incapaz de voltar ao ponto de partida, talvez um pouco mais desconfiada, magoada, sensível, mas voltara e ali estava, novamente, indo a lugar nenhum. Não sabia aonde ele poderia a levar. Também não fazia questão de saber. Mas gostaria de um acordo. Algo que o fizesse prometer que não a faria sofrer. Porque queria continuar assim, sentindo amor, paixão, admiração, carinho, respeito e não o oposto. E triste seria se isso se invertesse. Seria uma grande perda. Não queria de forma alguma outra perda, não desta vez, não ele, que foi a melhor coisa que poderia ter lhe ocorrido nos tempos em que estava. Momentos de crise e de rebeldia...
Tantas palavras ainda podiam ser ditas, coisas que não queria revelar a si mesma. Talvez lhe revelasse algum dia. Um dia ruim, iluminar-se-ia com palavras mágicas, na medida certa, pois falar demais é um problema, e o silêncio pode dizer muito mais. Porque conseguir ficar em silêncio é uma dádiva, pouco compreendida. Quem não tem intimidade com a ausência de som, se constrange com ela. E por compreender o silêncio, ela podia lhe ouvir por diversas outras formas e fazer-se ouvir. Há tantos outros ruídos, em nossa mente, e há tantas palavras, também nela, que precisam ser escutadas, sem ser ditas. Elas fluem de alguma outra forma. Quando não conseguem, aí sim, é melhor dizê-las. Ela não precisaria lhe dizer que ficasse, ou o que queria, já estava bem claro. E ele podia ouvi-la, senti-la, compreende-la e levá-la...