terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lembranças

Ela deitou- se na cama, fechou os olhos e começou a devanear, após mais um dia não muito interessante. A insônia abriu- lhe os olhos. Pôs- se a escrever sobre (ou para) alguém, ou simplesmente para ela.

“Se um dia descobrira a paixão, fora numa troca de olhares não tão ingênua quanto diria a poesia. Quanto segredo quisera em ti descobrir, mas em anos tão pouco me revelara. Contentei- me a conter-te em meus pensamentos e devaneios profundos, porque a proibição impunha- se mais imponente que o desejo de nossos olhares e abraços despretensiosos. Teus olhos calmaria jamais foram, apesar de límpidos e suaves, causaram verdadeiras tormentas em sentimentos tão pouco explorados e grandemente reprimidos. Nunca acreditara em nada religioso, apenas fantasmas e bonecas vingativas, além de alguma desconfiança quanto a um possível mundo além, como muitos dizem. Entretanto, fizeras com que acreditasse que nosso entendimento transcendesse o simples convívio presente e fosse além do explicável, mais inimaginável que qualquer teoria sobre vivos, mortos e aqueles em meio caminho entre isso. Pois troca de olhares sempre bastara para compreendermos o incompreensível de nossas almas medrosas e aflitas com turbilhões de problemas, cada qual um dimensão do teu. E por mais dúvidas impostas, não precisava mais que um toque amigo e carinhoso para que o mundo desaparecesse por completo infinitamente durante alguns segundos. Tentativas não faltaram, e, infelizmente, o destino impôs- nos completa distância, por bem ou mal. Mas o bem que me fizestes depertara em mim o desejo de ser melhor do que poderia ser. Agora me resta o vício de buscar por olhos que vejam minha alma, como os teus viam, que me façam querer persistir, bem como braços que me acalentem e transfiram-me mais energia do que o corpo possa suportar, como os teus fizeram tantas vezes. Acredito na impossibilidade de tal feito e por mais que o tempo passe, sempre lembrarei de uma certa paixão proibida, reprimida, que me impulsionou em direção ao que hoje sou e em cujas lembranças ainda me apoio buscando conforto ao desespero meu de cada dia. Ligação mais sublime que céus e mar não se rompe com o tempo, ainda nos reencontraremos, aqui ou em qualquer outro lugar.”

Após escrever, adormeceu profundamente, sem sonho algum.