Deitado ali. Jogado daquele jeito. Num turbilhão monstruoso de businas e motores. O sol é forte, não tanto quanto a dor. Começava em alguma parte do seu corpo, que já não sabia qual. E ia se espalhando, chegava a algum lugar da sua barriga, da sua cabeça, que girava e de voltas em voltas ainda estava lá. Deitado, imóvel, quase morto. Eu quero morrer, mas nem isso posso. Eu, inutilmente um ser asqueroso com dor. Sujo e fedido. E todos passam e olham, apenas. Há quem se comova, ignore, sinta raiva, mas ninguém ajuda. Nem ajuda quero. Seu desejo - e um ser assim pode desejar alguma coisa?- era só dormir eternamente - mas que barulho insuportável! Meus pés grudaram e minhas mãos, cadê as minhas mãos? Um ser que não tem mãos e tem os pés grudados e a barriga pregada no banco quente e a carne derretendo já é quase um não ser.
Nada a fazer. Lembrar da família que não tem, ou daquela que nunca teve. Quem se importa? Mal cuido de mim, quanto mais de outras criaturas... Aquelas pessoas que passavam tinham suas casas e suas famílias e sua dignidade. Eu sou um nada. A vida toda – que vida?- nunca fui. Em sua resignação jamais será. A carne está mole, não tem força pra lutar, quem dirá sair dali. E quem chega pra tomar o ônibus se assusta. Quem está dentro do ônibus, não. Afinal de contas ele só podia roubar quem estivesse ali parado, esperando aquela caixa de rodas. Tem gente que reclama de pegar ônibus. Mas quem anda de ônibus é porque vai pra algum lugar, tem alguma casa e tem algum dinheiro, senão estaria ali como ele, deitado no banco do ponto de ônibus e não esperando o maldito ônibus, que faz tanto barulho, ah minha cabeça dói!
Não vou me levantar. Porque não tinha pra onde ir. A não ser que quisesse outro ponto. E ser visto por outras pessoas, que no fim das contas são sempre as mesmas. Eu aqui não sou o mesmo dos que estão ali e nunca vou ser enquanto minha carne arder e minha cabeça rodar e a dor me consumir. Talvez ela me mate. Seria bom. E queria desistir assim, entregar desse jeito – nem mãos tenho pra entregar nada.
Um trovão. E o tempo está se fechando. Podia cair um raio, aqui mesmo, onde estou. E então tudo fritava de vez e virava pó. Pó é alguma coisa. Eu sou um nada. E os primeiros pingos caiam sobre sua cara. E cada um é como um tapa. Por estar ali, merece isso. Não adianta buscar culpados por estar lá. Passou a vida procurando-os e ia encontrá-los um a um, olhando dentro de si. Porque o coração ainda bate. O cérebro pensa. As mãos estão aí sim. Mas do que adianta isso, se eu não tenho nada? Mas tem sim, o amor tem suas raízes. Onde não há mal, o bem ocupa espaço.
A chuva lavava a rua. E sua roupa suja. A enxurrada molhava os pés das pessoas que desciam do ônibus, raivosas por estarem naquele ônibus cheio de gente, com os vidros fechados. E limpava sua cara amassada. Estou sentindo minhas mãos, e meus pés desgrudando. Ainda dói. Melhor sair daqui e ir pra lugar nenhum.
Um clarão iluminou o céu.
Nada a fazer. Lembrar da família que não tem, ou daquela que nunca teve. Quem se importa? Mal cuido de mim, quanto mais de outras criaturas... Aquelas pessoas que passavam tinham suas casas e suas famílias e sua dignidade. Eu sou um nada. A vida toda – que vida?- nunca fui. Em sua resignação jamais será. A carne está mole, não tem força pra lutar, quem dirá sair dali. E quem chega pra tomar o ônibus se assusta. Quem está dentro do ônibus, não. Afinal de contas ele só podia roubar quem estivesse ali parado, esperando aquela caixa de rodas. Tem gente que reclama de pegar ônibus. Mas quem anda de ônibus é porque vai pra algum lugar, tem alguma casa e tem algum dinheiro, senão estaria ali como ele, deitado no banco do ponto de ônibus e não esperando o maldito ônibus, que faz tanto barulho, ah minha cabeça dói!
Não vou me levantar. Porque não tinha pra onde ir. A não ser que quisesse outro ponto. E ser visto por outras pessoas, que no fim das contas são sempre as mesmas. Eu aqui não sou o mesmo dos que estão ali e nunca vou ser enquanto minha carne arder e minha cabeça rodar e a dor me consumir. Talvez ela me mate. Seria bom. E queria desistir assim, entregar desse jeito – nem mãos tenho pra entregar nada.
Um trovão. E o tempo está se fechando. Podia cair um raio, aqui mesmo, onde estou. E então tudo fritava de vez e virava pó. Pó é alguma coisa. Eu sou um nada. E os primeiros pingos caiam sobre sua cara. E cada um é como um tapa. Por estar ali, merece isso. Não adianta buscar culpados por estar lá. Passou a vida procurando-os e ia encontrá-los um a um, olhando dentro de si. Porque o coração ainda bate. O cérebro pensa. As mãos estão aí sim. Mas do que adianta isso, se eu não tenho nada? Mas tem sim, o amor tem suas raízes. Onde não há mal, o bem ocupa espaço.
A chuva lavava a rua. E sua roupa suja. A enxurrada molhava os pés das pessoas que desciam do ônibus, raivosas por estarem naquele ônibus cheio de gente, com os vidros fechados. E limpava sua cara amassada. Estou sentindo minhas mãos, e meus pés desgrudando. Ainda dói. Melhor sair daqui e ir pra lugar nenhum.
Um clarão iluminou o céu.

Espetacular!
ResponderExcluirMuito massa!
E agora eu já sei onde achar os culpados!
Bjim, lindinha.
Muito legal!
ResponderExcluirVc pode escrever um livro!
Vai ser sucesso!
Bjão! Saudades D+++!