sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Além da vida

Aos cacos... O carro, o despertador, o telefone e ele próprio. Sabia que já era tarde demais para chegar atrasado ao trabalho. Pouco lhe importava. Aliás, nada importava naquele momento, apesar de saber que as roupas estavam espalhadas pelo quarto, havia poeira sobre os móveis, o último pedaço de pizza devia estar sendo bem servido por baratas, algum amigo talvez ligasse, seu chefe poderia o demitir, aquela febre não iria passar, não queria saber de remédio, nem absolutamente nada e não iria se levantar da cama, mas ficaria ali imóvel. O cheiro dela ainda estava naqueles lençóis. Poderia ficar lá, sentindo-o apenas, tentando aproveitar o que restou, desde sua partida.
Brigou, xingou, foi embora, e sabia, desta vez não iria voltar. E era culpa sua, que a deixou sair daquele jeito, nervosa, histérica. Ele a entregou as chaves do carro, disse para ir. Ela foi. Tentava não imaginar o susto, a dor sentida por ela no acidente, seu sangue molhando o asfalto, seu coração que não batia mais. E foi-se assim, sem perdoá-lo, com lágrimas ao rosto. Ele era um maldito filho da puta que não merecia estar vivo, ao contrário dela, tão linda, inteligente e jovem. Mas destruira a vida dela, logo não merecia viver.
Não suportaria viver só, sem ela. E porque disse todas aquelas coisas, se era o amor que o mantinha de pé, se era ela seu anjo que lhe trouxe paz, risos e felicidade? Como levantaria sem escurtar-lhe a voz dizendo bom dia, com a casa sem o cheiro do café que ela fazia, e depois sair sem o beijo de hortelã daqueles lábios macios, e sem ver a ternura em sua face dizendo até mais tarde? Como depois dirigir-se a uma casa vazia, sem ninguém a o esperar, para poder conversar, e não a teria para jogá-la na cama, nem dormir ao seu lado. Nada mais fazia sentido. Aquilo deveria ser um pesadelo, precisava acordar. Mas era tão real, sabia que era.
Fechou os olhos. Viu-se fora do quarto, não sabia onde. E então escutou que chamavam seu nome. Era ela. Envolta por luz que lhe ofuscava a visão. Atirou-se lhe aos pés e chorou e pediu perdão e jurou que a amava mais que tudo e que não queria viver à sua ausência. Radiante, seu anjo sorriu, como se o perdoasse, estendeu-lhe a mão, pedindo que se levantasse. Ela estava tão perto, mas tão longe, que não poderia trazê-la de volta. Tinha que levantar, mas faltava-lhe forças. Ela o ajudou, dizendo que o amava, pedindo para não esquecê-la. E mais uma vez, foi-se.
Abriu os olhos. Estava tudo da mesma forma, nada havia mudado. Saiu da cama. Porém, não foi trabalhar.
Foi buscá-la em algum lugar.

2 comentários:

  1. Aylla escreve algo sobre Arbustus Simpáticos Paranóicos. com certeza vale os comentarios acima, muito bom e espetacular, esses textos podem virar um, se já não é, concerteza um best seller abraços e beijos, Seu Tio Alessandro Alves Rodrigues.

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